A espiritualidade, quando entendida como experiência existencial, não se limita a dogmas ou sistemas. Ela é o que Paul Tillich chamaria de uma "preocupação última" — aquilo que nos move no mais profundo, que dá contorno à nossa existência, que nos faz perguntar: quem sou eu? por que existo? há sentido em tudo isso?
Para Søren Kierkegaard, o ser humano está constantemente diante de uma tensão entre o finito e o infinito. Ele não nasce pronto. Ele se torna. E esse tornar-se exige um salto de fé — não no sentido de crer em doutrinas fixas, mas de ousar existir com autenticidade, enfrentando a angústia, a dúvida, o medo e mesmo o desespero. Fé, aqui, é coragem de viver mesmo sem garantias.
Heidegger, por sua vez, fala da necessidade de sair da superficialidade do "se impessoal" e encarar o próprio ser-para-a-morte. Essa consciência nos desperta para a autenticidade. É nesse ponto que a espiritualidade toca o mais profundo da existência: ela nos empurra para fora do automático e nos convoca a escolher, a escutar, a responder.
É nessa jornada que também entra a coragem de ser. Tillich fala dela como a coragem de afirmar o próprio ser mesmo quando tudo à nossa volta parece dizer o contrário. A coragem de ser é também a coragem de crer — mesmo na dúvida. De amar — mesmo no risco. De viver — mesmo na dor.
No fim das contas, espiritualidade existencial não é uma fuga da vida real. É justamente o contrário. É um mergulho radical na vida concreta, no cotidiano, nas relações, nos conflitos internos. É aí que Deus se revela: não como algo que nos tira da existência, mas como aquele que nos chama ao mais profundo dela.
Talvez seja hora de abandonar a busca por uma espiritualidade que anestesia e abraçar uma espiritualidade que desperta. Que nos coloca em movimento. Que nos chama a ser.
Porque, no fundo, tornar-se espiritual é isso: tornar-se humano.
Débora Aquino
Texto maravilhoso! Estou amando esse blog!
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